Também conhecida historicamente como Doença de Von Recklinghausen, a Neurofibromatose (NF) não é apenas uma condição dermatológica, mas uma síndrome neurocutânea complexa causada por mutações genéticas que afetam o crescimento celular no sistema nervoso.
Embora as manifestações visíveis na pele sejam o sinal de alerta mais comum, a condição exige uma abordagem multidisciplinar que vai da investigação molecular à cirurgia reparadora de alta complexidade.
No Hospital Sobrapar, é feito o manejo cirúrgico das deformidades craniofaciais e tumores decorrentes desta condição, oferecendo suporte integral para restaurar a função e a estética do paciente.
Leia mais sobre a atuação do Sobrapar em Tratamentos de Anomalias Craniofaciais
A Ciência por Trás da Doença: Entendendo a Genética e a Via RAS
Diferente de tumores esporádicos, a neurofibromatose ocorre devido a uma falha no “freio” de crescimento das células. Para entender o tratamento, é preciso compreender a origem molecular:
- Neurofibromatose Tipo 1 (NF1): Causada por mutações no gene NF1 (localizado no cromossomo 17). Este gene é responsável por produzir a neurofibromina, uma proteína que regula a Via RAS. Em termos simples, a via RAS estimula as células a crescerem e se dividirem. A neurofibromina atua “desligando” esse sinal. Quando o gene falha, a via RAS permanece hiperativa, levando ao crescimento descontrolado de tumores (neurofibromas) ao longo dos nervos[4].
- Neurofibromatose Tipo 2 (NF2): Envolve o gene NF2 (cromossomo 22), responsável pela proteína merlina (ou schwannomina). A falha aqui afeta principalmente as células de Schwann, predispondo o paciente a tumores no sistema auditivo e nervoso central[4].
- Hereditariedade: A condição segue um padrão autossômico dominante. Isso significa que basta herdar o gene alterado de apenas um dos pais para desenvolver a doença. Contudo, cerca de 50% dos casos são resultantes de mutações de novo (espontâneas), ocorrendo em famílias sem histórico anterior.
Nota Clínica: O entendimento da via RAS não é apenas teórico; ele é a base para novas terapias medicamentosas que buscam inibir esse crescimento, embora a cirurgia permaneça o padrão ouro para a remoção de tumores volumosos e deformidades já estabelecidas.
Guia de Identificação Visual: Sinais e Sintomas
Atenção: As descrições abaixo servem para orientação educativa. O diagnóstico deve ser sempre confirmado por um médico.
A neurofibromatose se manifesta através de sinais visuais específicos que evoluem com a idade.

1. Manchas Café com Leite (Café-au-lait)
São o “cartão de visita” da NF1.
- O que procurar: Manchas planas, de bordas bem definidas, com coloração marrom-claro (semelhante à cor de café com leite).
- Critério Diagnóstico: A presença de seis ou mais manchas maiores que 5mm (em crianças) ou 15mm (em adultos) é um forte indício clínico.
2. Sardas Axilares e Inguinais (Sinal de Crowe)
Diferente das sardas solares comuns no rosto, estas aparecem em áreas não expostas ao sol.
- Localização: Agrupamentos de pequenas sardas (efélides) nas axilas ou na região da virilha. Geralmente surgem entre os 3 e 5 anos de idade .
3. Neurofibromas Cutâneos e Subcutâneos
- Aparência: Pequenos nódulos ou “caroços” que podem ser sentidos logo abaixo da pele ou protuberâncias moles na superfície. Podem ser da cor da pele ou levemente arroxeados/rosados.
- Evolução: Costumam aumentar em número durante a puberdade e gravidez.1
4. Neurofibromas Plexiformes (O Foco Cirúrgico)
Estes são tumores mais complexos que crescem ao longo dos nervos, podendo causar aumento de volume significativo em regiões da face, pálpebras ou membros.
- Impacto: Podem causar assimetria facial, “queda” da pálpebra e deformidades ósseas. Diferente dos cutâneos, estes apresentam risco (pequeno, mas existente) de transformação maligna e exigem monitoramento constante.
5. Nódulos de Lisch
Pequenos tumores (hamartomas) na íris do olho.
- Visualização: Aparecem como “pontinhos” amarronzados ou amarelados na parte colorida do olho. Geralmente não afetam a visão, mas são essenciais para o diagnóstico oftalmológico.
Perguntas Frequentes
Esclarecendo dúvidas comuns que você pode ter medo de perguntar.
A neurofibromatose é contagiosa?
Não. A neurofibromatose é uma condição genética. Ela não se transmite pelo contato, beijo, sangue ou qualquer forma de contágio físico. Ela é herdada dos pais ou ocorre devido a uma mutação nova no DNA durante a gestação.
Qual é a expectativa de vida de quem tem NF?
A grande maioria das pessoas com NF1 leva uma vida produtiva e longa. Estatisticamente, pode haver uma redução média de 8 a 10 anos na expectativa de vida devido ao risco de complicações malignas ou vasculares. Contudo, o acompanhamento preventivo e o tratamento precoce de complicações são a chave para igualar essa expectativa à da população geral e garantir qualidade de vida.
A neurofibromatose pode afetar o fígado ou órgãos internos?
Sim, embora seja menos visível que as lesões na pele. Os neurofibromas plexiformes podem crescer internamente, afetando o mediastino e o retroperitônio, podendo envolver órgãos como o fígado e intestinos. Por isso, exames de imagem (como ressonância magnética) são importantes para investigar dores abdominais persistentes ou sintomas sistêmicos em pacientes diagnosticados.
Classificação Clínica: Tipos e Complicações
Neurofibromatose Tipo 1 (NF1)
Geralmente diagnosticada na infância, é a forma mais comum. Além das manifestações cutâneas descritas, pode envolver:
- Alterações Ósseas: Pseudoartrose da tíbia (curvatura da perna), escoliose (desvio na coluna) e displasias esqueléticas.
- Complicações Neurológicas: Dificuldades de aprendizado e TDAH são frequentes.
- Risco Oncológico: Monitoramento de tumores como gliomas ópticos e tumores malignos da bainha do nervo periférico (MPNST).
Neurofibromatose Tipo 2 (NF2)
Menos comum e com sintomas que surgem frequentemente no início da vida adulta ou adolescência tardia.
- Sintomas Principais: Perda auditiva progressiva, zumbido (tinnitus) e problemas de equilíbrio, causados por Schwannomas Vestibulares (tumores no nervo auditivo).
- Outros Tumores: Meningiomas e ependimomas no sistema nervoso central.
Diagnóstico e Tratamento Cirúrgico no Sobrapar
O diagnóstico é clínico e genético, mas o tratamento é focado na qualidade de vida e na funcionalidade. Embora ainda não exista cura definitiva para a alteração genética, as intervenções médicas transformam a vida do paciente.
No Hospital Sobrapar, nossa atuação é cirúrgica e reabilitadora:
- Ressecção de Neurofibromas: Remoção cirúrgica de tumores que causam dor, compressão de nervos ou desfiguramento estético importante.
- Cirurgia Craniofacial: Correção de deformidades ósseas na face e órbita causadas pela pressão dos tumores (ex: correção de exoftalmia ou assimetrias faciais).
- Reconstrução Palpebral: Tratamento de neurofibromas plexiformes que afetam a pálpebra e prejudicam a visão.
O acompanhamento deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar, incluindo cirurgiões plásticos, geneticistas, oftalmologistas e apoio psicológico para lidar com o impacto social da doença.
Em caso de suspeita ou diagnóstico confirmado, procure um centro de referência. O tratamento precoce minimiza as sequelas e melhora o prognóstico.
Histórias de Superação: A Jornada de Inez
A neurofibromatose vai muito além dos sintomas clínicos; ela impacta a identidade e a convivência social. Inez Nascimento Santos, paciente do Hospital Sobrapar, vivenciou na pele os desafios impostos pelas anomalias craniofaciais e tumores de face.
Sua história é um testemunho poderoso de resiliência e da importância de um tratamento humanizado que busca não apenas a cura física, mas o resgate da dignidade. Leia na íntegra: Anomalia Craniofacial e Tumores: História de Inez – Hospital Sobrapar